v. 45 n. 28 (2018): Revista do Ministério Público Militar

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Capa: Christus voor Pilatus, Martin Schongauer, 1470 - 1490 - Rijksmuseum

 

Na obra, Pilatos lava as mãos, tentando se dizer inocente, com sua omissão, da morte do Cristo.

Quando vimos a gravura usada na capa, logo pensamos: o autor teve grande influência de Dürer. Qual não foi nossa surpresa quando descobrimos que era justamente o contrário: o fabuloso Albrecht Dürer, um dos grandes do Renascimento é que fora influenciado por ele. Mais, Schongauer teria influenciado até o Divino Michelângelo, um dos principais forjadores da cultura ocidental. Martin Schongauer foi um Mestre da gravura e da pintura e seu estilo estava mais próximo do gótico que do próprio Renascimento período da arte em que viveu. Notem as formas alongadas, que não seguem a proporção exata e a distribuição de figuras sem a ordem geométrica renascentista, dentre outras coisas Suas gravuras mais conhecidas são as da série que retrata a Paixão de Cristo (dentre elas: a da nossa capa) e a Morte e Coroação da Virgem. Várias técnicas criadas por ele foram aperfeiçoadas por Dürer. Como esta edição é a primeira digital, optamos por combinar a tradição e a inovação. A gravura de um mestre da tradição ocidental é submetida a uma duplicação espelhada que, em um efeito xifópago produzido pela nossa brilhante designer Alessandra Pereira, forma no centro a imagem de um dragão, o eterno símbolo do mal na arte, como a sugerir que é a repetição da omissão que permite o surgimento do mal. 

Dizem que um bom orador é um contador de histórias e nunca cita em excesso. Bem, há muito a se citar e a história ainda não está pronta para ser contada: está em andamento... Cada um ainda pode optar por ser vilão, herói ou vítima: lobo, cão pastor ou ovelha, sem relativismos.  De todas as histórias que já foram contadas, poucas são tão conhecidas como a Paixão de Cristo. Sejamos religiosos ou não, quase todos conhecemos. Nela, o maior vilão de todos, se você ler nas entrelinhas, não é Judas, o traidor: traidores sempre há aos montes, apunhalando pelas costas, fazendo fogo amigo, sendo ingrato, “pagando com traição a quem sempre lhe deu a mão como diz o clássico samba. O maior vilão é Pilatos, aquele que tinha o poder e que em vez de fazer o que era certo, preferiu agradar quem manipulava, se aproveitava e censurava.  A Sociedade vive dias difíceis, dias de caos, destruição e democídio. Mas já vive há muito tempo e em 2013 começou a reagir de verdade. A Sociedade entendeu que tem voz e pode falar: cansou de ser calada no grito.  Há alguns anos, em um show, Toquinho, que é um grande contador de histórias, falava do Samba de Orly. Contava que visitou Chico Buarque, autoexilado na Itália, e desse encontro surgiu aquela canção. Quando mostraram a canção a Vinícius, o Poetinha quis entrar na parceria e propôs trocar a expressão “pede perdão pela duração dessa temporada” por “pede perdão pela omissão um tanto forçada”, para ser mais explícito. Pois foi justamente essa que foi cortada pela censura. Nem sempre se pode ser tão explícito: às vezes a verdadeira arte precisa de sutileza e figuras de linguagem para driblar aquele dragão, aquela Hidra – tolhedora e mutante – cujas cabeças vão ressurgindo sob as mais variadas formas: algumas até belas na aparência. A omissão, por vezes, pode ocorrer por ser um tanto forçada. Aliás, foi bom falar na Itália: ela sempre teve muito a nos ensinar, pelo bem e pelo mal. “Afasta de mim esse cálice” diz outra consagrada música que parafraseia a mesma história bíblica que mencionamos. Temos que ir além do seu sentido – depois de publicado, o autor não é mais o dono do sentido do poema: é o sentimento do leitor que o define – pois temos que afastar vários cálices além desse da música. Há quem defenda os problemas e lute para proibir sua solução. Há quem idolatre o mal e critique quem é do bem. “Tem gente que está do mesmo lado que você mas deveria estar do lado de lá”, como disse o Legião Urbana. Negociar, pacificar, apaziguar, nem sempre é a melhor política. O confronto é necessário às vezes: a discussão de ideias contrárias é necessária sempre. A omissão não é boa nunca, e, muitas vezes, ser bonzinho é a delicada máscara da covardia. Churchill bem dizia que “Um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando ser o último a ser devorado”. A criminalidade só cresce diante do eterno apaziguamento, da impunidade, da complacência com o crime – vidas e patrimônios destruídos ou em risco: individuais, coletivos, privados e públicos. O futuro não foi brando com Pilatos e não será com quem se omitir livre ou forçadamente. Quem tem uma missão deve cumpri-la e um membro do MP deve poder fazer suas as palavras de Ivan Lins, após cada atuação, no final da sua carreira ou no final da sua vida:“Só não lavei as mãos e é por isso que eu me sinto cada vez mais limpo”.

Adriano Alves

Promotor de Justiça Militar

Publicado: 24/10/2023